O juízo final
Pois bem, cirurgia marcada, todos os preparativos e eu estava tranquilíssima. Já sabia e havia aceitado (dei o mindinho pra Deus e falei: ok bro', tô ligada que você realmente me deu essa missão aí, acho que já topei, tô dentro... porque eu também não tenho como escolher, né não?)
Ali, seria o começo de uma vida camarada de hospital, você fica expert em tudo: tempo de exames, preparações, como é uma cirurgia, que exame de sangue precisa de jejum, qual não precisa e por aí vai. Praticamente um glossário da vida hospitalar \o/
O anestesista passou no quarto e veio fazer aquele questionário básico pra ver se você seguiu as recomendações, pra não morrer na anestesia ( e depois da explicação dele, eu realmente entendi que segui-las não é frescura, o bagulho é sério mesmo. Pode encalhar um pedaço de banana que você comeu de manhã na traquéia ou sei lá onde e aí, amigão, we'll see you on the other side).
Nunca tive pânico de cirurgias, então tudo ok. O chato mesmo é a espera. Espera pro anestesista chegar, espera pra entrar na sala de cirurgia, espera depois da cirurgia. Mas tudo é recompensado com aquele soninho FANTÁSTICO que só a anestesia te proporciona.
Pra mim que não dormia há um mês de tanto desespero, foi mais que merecido.
E ali, também, foi o começo de uma vivência de testemunhar a vida de pacientes muito piores que eu.
Me sentia muitas vezes, tendo uma gripe babaca perto das pessoas que eu conheci.
Na sala de espera pra entrar na cirurgia, tinha um cara do meu lado, não devia ter mais que 35 anos.
Magro, a aparência física dele não escondia: um cansaço físico e mental de lutar contra a doença.
Estava no hospital há DOIS meses. Dois, minha gente, sem comer, só no soro, era de uma magreza doente, os poros dele exalavam cansaço de tanto sofrer.Mas era no tom de voz dele, quando ele começava a falar que você percebia. Era como se aquele tom de voz que ele usasse, contrastando com a aparência magra dissesse: a alma aqui dentro tá lutando!
Não me lembro o que ele tinha, mas era grave.
Você percebe o quanto é grave, quando vê que a pessoa é íntima dos enfermeiros e trata todos pelo apelido.
Do lado dele, me senti uma menina idiota mimada, indo retirar uma verruga do dedo, por motivos estéticos.
O diagnóstico foi dado pelo médico, no fim do dia mesmo.
Falou na maior paz, "Mariana, é linfoma mesmo."
E eu respondi, na maior paz: Ok, eu já esperava"
Sem choro, sem desespero. Afinal, era aquilo, não era? Acho que a confirmação da situação, me acalmou. O desespero era fazer milhares de exames e não descobrir nada, e depois, ficar só na hipótese
.Não era um desespero de 'Meu Deus, e se eu morrer mês que vem?' (E eu tenho revolta dessas pessoas hipocondríacas que acham que vão morrer.Ah me poupe!)
Era mais no sentido: 'não sei se minha vida vai mudar no próximo mês e essa angústia me mata.'
Saí do hospital, no fim do dia e estava era preocupada com o livro de francês que eu tinha que comprar, pra aula do dia seguinte.
É câncer, você não pára de viver por ele, você vive pra depois conseguir continuar a viver SEM ele.
Comentários
Postar um comentário