A aceitação

Me lembro que entre a espera dos primeiros exames, pra punção e pra cirurgia da biópsia teve algum intervalo. Foi a espera do desespero.
Por algum motivo macabro, eu assistia como nunca reprises do ER que passavam de madrugada ( eu sempre odiei esse seriado). E não conseguia dormir.
Ficava agoniada, chorava de desespero. Aquele típico desespero de não saber o que vai acontecer e de nem saber direito o que estava acontecendo.
Era um choro que eu fazia questão de não exteriorizar, sempre pensei nos meus pais.
Meu pai sempre foi trágico e desesperado pra tudo (a farmacinha MEGA completa upgrade full power em casa, é graças a ele, aqui nunca falta NADA) e já deviam estar se remoendo na angústia sozinhos. Eu não precisava piorar, me esguelando no choro pra eles.

Lembro de quando saí do médico e ele me deu o diagnóstico 50% nada ou 50% linfoma, eu fui pra faculdade.
Todas as consultas que passava, eram em torno das seis da tarde, então íamos, saía da consulta, meus pais voltavam pra casa e eu e ia direto pra aula.E ironicamente o consultório fica no caminho da minha casa pra faculdade. Passo até hoje ali na frente. Às vezes,vem a memória automática, às vezes nem ligo.

Naquele dia eu fiz o mesmo, fui pra aula.
Mas porque seria insuportável eu colocar os pés em casa.
Assim que entrei no carro e comecei a dirigir, caí em prantos. Liguei pra uma amiga, cuja tia já tinha tido câncer. E lembro que quando ela atendeu, eu não conseguia falar de tanto que eu chorava.
Acontece que eu nunca fui uma pessoa chorona. Ou melhor, eu choro, mas sempre in private. Ninguém precisa me ver com uma cara monstruosa, bolachuda, toda vermelha.

Meu sonho quando pequena era chorar e continuar diva. Talvez meu trauma de chorar na frente dos outros melhorasse.
Mas não, o nariz triplica de tamanho, a cara fica rosa. É um show de horror.
Me recuperei e entrei pra aula ( não é relevante, mas faço Relações Internacionais, na Puc).
Muda.
A mesma aula em que percebi a bolinha, a mesma que fui depois do primeiro diagnóstico tuberculose. Aquelas quartas feiras me marcaram, pois as consultas eram semanais e assim, toda semana, era uma etapa a frente.

Lembro de comentar rindo dizendo, 'meu, pode ser que eu tenha tuberculose!Acredita? Bizarro!"
Por algum motivo, minha amiga, a mesma que mostrei a bolinha ( inclusive, estávamos sentadas no mesmo lugar) perguntou se eu tava bem. Só consegui balançar a cabeça de um lado pro outro, o som não saiu. Levantei e saí da sala e fui desabar no banheiro. Expliquei tudo e como todos, a reação foi a mesma: calma, tenha calma, você vai fazer a cirurgia e não vai ser nada.

Claro! Afinal QUEM quer considerar a possibilidade de ter ou da amiga,irmã, filha, sobrinha ter câncer? Ninguém responde, bom se vc tiver, estaremos aqui e faremos tudo que for preciso.

Acontece que ao chegar na cirurgia, tempo que esperei praquele dia, eu já tinha entendido que eu realmente estava com câncer. Os sintomas eram claros. E minha ficha caiu quando um dia, eu sentava sozinha na biblioteca, estudando, e meu braço começou a coçar, como sempre.Foi inevitável, as lágrimas começaram a escorrer e tive que sair dali.

A faculdade foi um cenário importantíssimo nessa etapa. Pra bom e pra ruim. A parte ruim eu só iria perceber depois de 3 anos. Mas isso conto mais pra frente.

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