Não mais sobre Jobs, só sobre câncer e a vida III
[parte 3]
Eu poderia comparar essa mesma sensação, talvez com outras experiências trágicas de vida. Um acidente de carro, uma doença grave, que no fim, superou-se. Não acho digno que comparar-se com a perda de alguém querido, porque isso pra mim, ainda é a representação de uma das coisas mais difíceis na vida.
Você sofre o trauma, mas as coisas não voltam exatamente como antes. A pessoa não está mais lá. A ausência vai ser eterna.
Por isso, o câncer (superado) é uma benção em vida. É uma morte em vida, também.
A Mariana que existia alguns meses antes de passar pela bateria de consultas e exames há 3 anos atrás, morreu.
Não, não é triste. É apenas uma mudança brusca.
Pra mim, é como se Deus tivesse me pego ali nos meus 22 anos e dito, vem cá, vamos dar um rolê.
Me colocado na vivência dos meus 30 aos 40. E me devolvido com vida, de volta aos meus 24, 25 anos.
É de um amadurecimento de vida e aprendizado absurdo.E uma oportunidade única.
Sabe aquela frase que os mais velhos dizem " ah, se eu tivesse a sua idade, com a maturidade e sabedoria que eu tenho hoje..." É como se Deus tivesse me dado isso de presente.
Um pacote extra grande de vivência, sabedoria, visão de vida e entendimento de mundo aos 22 anos.
Claro, eu ganhei a continuação da minha vida também, porque senão, de que adiantaria isso tudo?
Não significa que virei uma velha e nem uma pentelha arrogante, que sabe tudo da vida.
Não, eu não sei nada.
Mas a vida muda e você distingue o que realmente importa e que pra quem nunca passou por algo pesado e traumático, soam como palavras clichês de cartão de ano novo: a vida, as pessoas e as experiências.
Nada além disso.Nada mais vale.Na verdade, não mudou tanto o que eu pensava antes. Só intensificou o processo.
Nada daqui se leva.
Nada adianta ser um grande executivo, com uma carreira brilhante, um físico invejável, se a família se desmorona. Se os amigos ficam distantes,as ligações cada vez mais espaçadas, pela constante falta de tempo.
Aquela empresa, por qual você tanto foi leal, por anos, irá te mandar embora,quando a ela for necessário
( e por mais que pareça que eu esteja falando de Steve Jobs,estou falando de um amigo meu, rs).
As 16 h de trabalho diárias, realmente valem ao ponto de se perder 6 horas do seu dia com seu filho, seus amigos, jantando num restaurante, assistindo um filme? Ou aquele mega emprego mas que leva 3 h pra ir e 3 pra voltar, é melhor do que aquele que paga menos, mas você pode ir a pé?
Se valem, fantástico. É o trabalho dos sonhos. Se não ... hora de rever os conceitos.
Eu, na verdade, não passo de uma menina de 26 anos, recém formada, que se desespera para sair de casa e poder se sustentar, virar adulta, passar perrengue de início de vida.
Que duvida e sofre com as escolhas e as tentativas tropeçantes do início de vida adulta. Fazer o que todo mundo faz, ou aquilo que realmente alegra seu coração?
Correr com as escolhas pra não ficar pra trás daqueles que você convive? Fulaninho tá no mestrado, beltraninho na segunda graduação, sicraninho já iniciou a grande carreira. E eu? Puts, tô quase lá, mas uns dois passinhos atrás, ih tô atrasada?!
Bom, eu ? Eu tive câncer. O que me atrasou um pouco em relação aos meus planejamentos de vida, sim.
Mas o que eu ganhei com isso, é impagável.
Juro que se pudesse colocava até no meu currículo. Rs. A língua coça quando o entrevistador saca aquela famosa pergunta clichê ridícula de RH: cite um grande desafio na sua vida e como você o superou.
" Bom meu senhor, eu fui diagnosticada com linfoma há 3 anos atrás, no meio da minha graduação, quando achava que tinha sintomas de uma gripe
.Estava no auge da minha vida e da vida universitária, trabalhando super feliz e vibrando com meus planos de carreira que começava há pouco tempo.Virava 8 h no estágio (Sr. Lula ainda não tinha facilitado as coisas ), mais 4 na faculdade e ia dormir feliz, porque tava conseguindo pagar minhas pobres contas, o que sempre foi meu sonho, não depender de ninguém, nem 1 centavo.
Aí,parei de trabalhar, sofri com isso, porque amo o trabalho e essa vida corporativa safada.
Fui lá tomar uns remédios bacanas, vomitar um pouco, ficar em férias forçadas e treinar muito meu pensamento positivo, minha meditação e fazer uma yogas pra preencher meu excesso de tempo. Vi amigas fazerem viagens fantásticas que não pude ir por conta do tratamento. Fui à algumas festas que pude, me esforcei pra ir nos aniversários, mas não pude fazer tudo que a vida social me oferecia, naquela hora.
Não chorei, agradecia todo dia por estar viva e por ver gente em situações absurdamente piores que a minha.
Agora tô viva e aqui falando com você. É acho que essa foi o maior desafio, mas se você quiser, posso falar um mais profissional."
A língua coça, mas eu não falo. Não sei o que se passa na cabeça de uma empresa. Ih, ó lá a menina que vai ter que a cada seis meses sair duas horas mais cedo pra fazer uns exames. Ih, e se ela ficar doente de novo,vai saber né? E outra, mesmo que não rolasse isso, acho meio apelação também. E câncer geralmente vem seguido de duas expressões: choque e dó. E quem merece expressão de dó é cachorro vira lata morrendo de fome.
Eu poderia estar na multinacional que trabalhava antes, 2 degraus acima de onde estava, ano passado.
Estava cansada, chegava em casa chorando todos os dias, sentindo um vazio e uma infelicidade absurda.
Ia trabalhar dia sim, dia não, chorando por não querer estar onde eu deveria estar.
Não me levem a mal, eu adorei meu trabalho e muito. Aprendi muito, conheci pessoas fantásticas e percebi o quanto eu tinha potencial (sério, a gente nunca bota fé que é bom em algo, eu pelo menos não creio muito não, só acredito vendo)
Só estava cansada de fazer aquilo e sentia e queria poder fazer algo diferente, que eu aprendesse mais.Uma empresa daquele tamanho, poderia ter um espacinho ínfimo pra eu fazer algo diferente.
Estava infeliz comigo e isso refletia em tudo na minha vida: falta de vida social, pouco tempo com os amigos, pouca dedicação à vida acadêmica e por aí vai. Auto estimo a sete palmos do chão.Era como se eu estivesse num limbo. E ali, me sentia permanentemente esgotada.
Na verdade, era mais que isso, mas só fui descobrir quando me enfiei na terapia novamente, no começo desse anos.
Estava era num luto paralítico.Um luto que não vivi durante a doença, porque desliguei o meu psicológico pra poder usar o físico com toda a força total.
Terminado o capítulo de 2008, fechei o livro, entuchei ele na estante, dentro de um caixote e não mexi mais.
Ele não sumiu e tinha algumas páginas finais pra escrever.O livro não se desintegrou, continuou ali, só esperando.
Fui chorar e começar a ter flashbacks em início de 2011. Bom, antes tarde do que nunca, não??
No início de 2011, quando estava para tirar férias do trabalho, já tinha a ideia de pedir demissão assim que voltasse.
Já tinha decidido, mas cambaleava pelas constantes opiniões externas que gritavam impiedosamente:
- ' vc vai sair de um trabalho sem ter outro??? Tu é louca?"
- " mas quem vai pagar aquela blusa quando você for fazer compras no shopping?"
- isso é ingratidão com sua família, tomar uma decisão dessas, sem consultá-los antes!!Eu jamais faria isso.
Todas aquelas opiniões, furiosas por sinal, pra mim eram de uma limitação, de uma pequeneza (existe essa palavra?) que estava tão fora das minhas preocupações que me questionava se talvez, não estaria viajando homericamente, ao ponto de não entender aqueles considerações todas.Porra, eu sou tão lunática a ponto de não considerar nem 1% daquilo que eu tava escutando.
Era como se você estivesse decidindo entre usar um vestido roxo ou azul e sua amiga gritasse - puta merda, mas e os somalianos que vivem a menos de um dolar por dia? Como você pode escolher um ou outro???
Viu a falta de nexo?
- você vai sair de um trabalho sem ter outro?
Sim, não é a atitude mais sábia nem segura economicamente, mas não sustento 5 filhos, pago algumas poucas contas que poderei eliminar e infelizmente, ainda moro na minha casa, com meus pais, ou seja de certa forma, nunca fui independente fincanceiramente 100% com 24 anos, porque nas contas não incluem a luz, a água o gás e etc.
Mas não entra na minha cabeça porque tenho que me martirizar ao ponto de quase bater o carro em direção ao trabalho, porque o choro era tanto que a vista embaçou e quase não vejo o motoca na minha frente.
Ok, pensamento de menina mimada.
- " tá, mas quem vai pagar aquela blusa quando você for fazer compras no shopping? Aquele sapato? Aquela bolsa que vc achou linda?
Nunca fiu consumista, nem fã de fazer compras. Não vou morrer,se ficar sem comprar isso por uns tempos.
-- isso é ingratidão com sua família, tomar uma decisão dessas, sem consultá-los antes!!Eu jamais faria isso.
Eu sustento meu pai e minha mãe, ponho comida na mesa e não me avisaram? Não entendi.
Tenho PLENA noção da renda mensal de casa e os meus míseros mil e poucos reais de analista I que entravam ali mensalmente, ajudavam porcamente e não faziam a mínima diferença.
Eram na verdade, de uma importância muito mais simbólica do que real (e que pra mim continua sendo muito e talvez mais importante, SEMPRE!)
Claro, também não achava bonito ter que ficar sendo sustentada pelo pai. Eu sempre fui super mão de vaca e econômica, me aguentaria sozinha por alguns bons 5 meses, mas depois... não ia ter mais bufunfa que desse.
Minhas considerações de fato podem ser a ilustração caxias de uma menininha filha de papai que não pensa nos atos e faz o que quer.
Na verdade, nenhuma daquelas considerações fazia o mínimo sentido pra mim. A única coisa que me vinha à cabeça era:
Amigos! Eu tive CÂNCER e se não tivesse descoberto a tempo, não estaria sentada nessa mesa. Isso que vocês estão dizendo como itens importantíssimos, digno de vida ou morte, pra mim, não fazem o MÌNIMO sentido!!! Pra mim o que importa é minha felicidade. Só tenho UMA vida pra viver, estou consumindo há 8 meses, 16 h do meu dia nesse lugar, sem aprender nada, sem viver nada, sem acrescentar absolutamente nada na minha vida e que só me traz lágrimas.
A única coisa que acrescenta é o mísero salário ( e põe mísero nisso) que, toda vez que olho minha conta, me faz sentir uma prostituta, porque o mercado paga 3 vezes mais do que isso.
E eu tô aqui, sendo explorada e absurdamente infeliz, porque acreditei sempre que o salário é secundário, dinheiro não é tudo e vou ter muito aprendizado e experiência aqui dentro. NOT!
Mesmo assim, eu precisava fazer o que eu fiz. Pedi demissão e fui pra India.
Não, nunca na minha vida desejei ir pra India. Apesar de gostar muito de viajar.
Há alguns meses, tinha uma amiga que morava por lá e me enviava fotos, frequentemente.
Toda vez que eu abria o arquivo, confirmava, com orgulho e firmeza, que realmente eu não aguentaria passar nem 5 dias naquele lugar.Era muito pra mim.Eu tinha plena noção dos meus limites.
Mas ali, na minha frente, desenhou-se uma oportunidade única de ir pra lá.
A tal amiga estaria de férias e poderia me acompanhar num mochilão. Eu poderia me hospedar em algumas casas de conhecidos e conhecer a vida de lá mais como local e menos como turista.
Eu tinha o dinheiro pra bancar a viagem.
E sabia que se não fosse naquele momento, provavelmente nunca, na minha vida iria conhecer a India.
Fui à minha consulta de 2011 pra ver se tava tudo ok. Tomografia, exame de sangue, uma olhada naquela bolinha na virilha que tava me deixando tudo meio apavorada.
Saindo do médico, estava tão feliz, que me segurei pra não cair no choro. Fui à agência de viagens mais próxima dali e emiti minha passagem São Paulo - Mumbai.
Há muito tempo que não me sentia feliz daquele jeito. Era como se eu estivesse morta durantes uns 3 anos.
Eu poderia comparar essa mesma sensação, talvez com outras experiências trágicas de vida. Um acidente de carro, uma doença grave, que no fim, superou-se. Não acho digno que comparar-se com a perda de alguém querido, porque isso pra mim, ainda é a representação de uma das coisas mais difíceis na vida.
Você sofre o trauma, mas as coisas não voltam exatamente como antes. A pessoa não está mais lá. A ausência vai ser eterna.
Por isso, o câncer (superado) é uma benção em vida. É uma morte em vida, também.
A Mariana que existia alguns meses antes de passar pela bateria de consultas e exames há 3 anos atrás, morreu.
Não, não é triste. É apenas uma mudança brusca.
Pra mim, é como se Deus tivesse me pego ali nos meus 22 anos e dito, vem cá, vamos dar um rolê.
Me colocado na vivência dos meus 30 aos 40. E me devolvido com vida, de volta aos meus 24, 25 anos.
É de um amadurecimento de vida e aprendizado absurdo.E uma oportunidade única.
Sabe aquela frase que os mais velhos dizem " ah, se eu tivesse a sua idade, com a maturidade e sabedoria que eu tenho hoje..." É como se Deus tivesse me dado isso de presente.
Um pacote extra grande de vivência, sabedoria, visão de vida e entendimento de mundo aos 22 anos.
Claro, eu ganhei a continuação da minha vida também, porque senão, de que adiantaria isso tudo?
Não significa que virei uma velha e nem uma pentelha arrogante, que sabe tudo da vida.
Não, eu não sei nada.
Mas a vida muda e você distingue o que realmente importa e que pra quem nunca passou por algo pesado e traumático, soam como palavras clichês de cartão de ano novo: a vida, as pessoas e as experiências.
Nada além disso.Nada mais vale.Na verdade, não mudou tanto o que eu pensava antes. Só intensificou o processo.
Nada daqui se leva.
Nada adianta ser um grande executivo, com uma carreira brilhante, um físico invejável, se a família se desmorona. Se os amigos ficam distantes,as ligações cada vez mais espaçadas, pela constante falta de tempo.
Aquela empresa, por qual você tanto foi leal, por anos, irá te mandar embora,quando a ela for necessário
( e por mais que pareça que eu esteja falando de Steve Jobs,estou falando de um amigo meu, rs).
As 16 h de trabalho diárias, realmente valem ao ponto de se perder 6 horas do seu dia com seu filho, seus amigos, jantando num restaurante, assistindo um filme? Ou aquele mega emprego mas que leva 3 h pra ir e 3 pra voltar, é melhor do que aquele que paga menos, mas você pode ir a pé?
Se valem, fantástico. É o trabalho dos sonhos. Se não ... hora de rever os conceitos.
Eu, na verdade, não passo de uma menina de 26 anos, recém formada, que se desespera para sair de casa e poder se sustentar, virar adulta, passar perrengue de início de vida.
Que duvida e sofre com as escolhas e as tentativas tropeçantes do início de vida adulta. Fazer o que todo mundo faz, ou aquilo que realmente alegra seu coração?
Correr com as escolhas pra não ficar pra trás daqueles que você convive? Fulaninho tá no mestrado, beltraninho na segunda graduação, sicraninho já iniciou a grande carreira. E eu? Puts, tô quase lá, mas uns dois passinhos atrás, ih tô atrasada?!
Bom, eu ? Eu tive câncer. O que me atrasou um pouco em relação aos meus planejamentos de vida, sim.
Mas o que eu ganhei com isso, é impagável.
Juro que se pudesse colocava até no meu currículo. Rs. A língua coça quando o entrevistador saca aquela famosa pergunta clichê ridícula de RH: cite um grande desafio na sua vida e como você o superou.
" Bom meu senhor, eu fui diagnosticada com linfoma há 3 anos atrás, no meio da minha graduação, quando achava que tinha sintomas de uma gripe
.Estava no auge da minha vida e da vida universitária, trabalhando super feliz e vibrando com meus planos de carreira que começava há pouco tempo.Virava 8 h no estágio (Sr. Lula ainda não tinha facilitado as coisas ), mais 4 na faculdade e ia dormir feliz, porque tava conseguindo pagar minhas pobres contas, o que sempre foi meu sonho, não depender de ninguém, nem 1 centavo.
Aí,parei de trabalhar, sofri com isso, porque amo o trabalho e essa vida corporativa safada.
Fui lá tomar uns remédios bacanas, vomitar um pouco, ficar em férias forçadas e treinar muito meu pensamento positivo, minha meditação e fazer uma yogas pra preencher meu excesso de tempo. Vi amigas fazerem viagens fantásticas que não pude ir por conta do tratamento. Fui à algumas festas que pude, me esforcei pra ir nos aniversários, mas não pude fazer tudo que a vida social me oferecia, naquela hora.
Não chorei, agradecia todo dia por estar viva e por ver gente em situações absurdamente piores que a minha.
Agora tô viva e aqui falando com você. É acho que essa foi o maior desafio, mas se você quiser, posso falar um mais profissional."
A língua coça, mas eu não falo. Não sei o que se passa na cabeça de uma empresa. Ih, ó lá a menina que vai ter que a cada seis meses sair duas horas mais cedo pra fazer uns exames. Ih, e se ela ficar doente de novo,vai saber né? E outra, mesmo que não rolasse isso, acho meio apelação também. E câncer geralmente vem seguido de duas expressões: choque e dó. E quem merece expressão de dó é cachorro vira lata morrendo de fome.
Eu poderia estar na multinacional que trabalhava antes, 2 degraus acima de onde estava, ano passado.
Estava cansada, chegava em casa chorando todos os dias, sentindo um vazio e uma infelicidade absurda.
Ia trabalhar dia sim, dia não, chorando por não querer estar onde eu deveria estar.
Não me levem a mal, eu adorei meu trabalho e muito. Aprendi muito, conheci pessoas fantásticas e percebi o quanto eu tinha potencial (sério, a gente nunca bota fé que é bom em algo, eu pelo menos não creio muito não, só acredito vendo)
Só estava cansada de fazer aquilo e sentia e queria poder fazer algo diferente, que eu aprendesse mais.Uma empresa daquele tamanho, poderia ter um espacinho ínfimo pra eu fazer algo diferente.
Estava infeliz comigo e isso refletia em tudo na minha vida: falta de vida social, pouco tempo com os amigos, pouca dedicação à vida acadêmica e por aí vai. Auto estimo a sete palmos do chão.Era como se eu estivesse num limbo. E ali, me sentia permanentemente esgotada.
Na verdade, era mais que isso, mas só fui descobrir quando me enfiei na terapia novamente, no começo desse anos.
Estava era num luto paralítico.Um luto que não vivi durante a doença, porque desliguei o meu psicológico pra poder usar o físico com toda a força total.
Terminado o capítulo de 2008, fechei o livro, entuchei ele na estante, dentro de um caixote e não mexi mais.
Ele não sumiu e tinha algumas páginas finais pra escrever.O livro não se desintegrou, continuou ali, só esperando.
Fui chorar e começar a ter flashbacks em início de 2011. Bom, antes tarde do que nunca, não??
No início de 2011, quando estava para tirar férias do trabalho, já tinha a ideia de pedir demissão assim que voltasse.
Já tinha decidido, mas cambaleava pelas constantes opiniões externas que gritavam impiedosamente:
- ' vc vai sair de um trabalho sem ter outro??? Tu é louca?"
- " mas quem vai pagar aquela blusa quando você for fazer compras no shopping?"
- isso é ingratidão com sua família, tomar uma decisão dessas, sem consultá-los antes!!Eu jamais faria isso.
Todas aquelas opiniões, furiosas por sinal, pra mim eram de uma limitação, de uma pequeneza (existe essa palavra?) que estava tão fora das minhas preocupações que me questionava se talvez, não estaria viajando homericamente, ao ponto de não entender aqueles considerações todas.Porra, eu sou tão lunática a ponto de não considerar nem 1% daquilo que eu tava escutando.
Era como se você estivesse decidindo entre usar um vestido roxo ou azul e sua amiga gritasse - puta merda, mas e os somalianos que vivem a menos de um dolar por dia? Como você pode escolher um ou outro???
Viu a falta de nexo?
- você vai sair de um trabalho sem ter outro?
Sim, não é a atitude mais sábia nem segura economicamente, mas não sustento 5 filhos, pago algumas poucas contas que poderei eliminar e infelizmente, ainda moro na minha casa, com meus pais, ou seja de certa forma, nunca fui independente fincanceiramente 100% com 24 anos, porque nas contas não incluem a luz, a água o gás e etc.
Mas não entra na minha cabeça porque tenho que me martirizar ao ponto de quase bater o carro em direção ao trabalho, porque o choro era tanto que a vista embaçou e quase não vejo o motoca na minha frente.
Ok, pensamento de menina mimada.
- " tá, mas quem vai pagar aquela blusa quando você for fazer compras no shopping? Aquele sapato? Aquela bolsa que vc achou linda?
Nunca fiu consumista, nem fã de fazer compras. Não vou morrer,se ficar sem comprar isso por uns tempos.
-- isso é ingratidão com sua família, tomar uma decisão dessas, sem consultá-los antes!!Eu jamais faria isso.
Eu sustento meu pai e minha mãe, ponho comida na mesa e não me avisaram? Não entendi.
Tenho PLENA noção da renda mensal de casa e os meus míseros mil e poucos reais de analista I que entravam ali mensalmente, ajudavam porcamente e não faziam a mínima diferença.
Eram na verdade, de uma importância muito mais simbólica do que real (e que pra mim continua sendo muito e talvez mais importante, SEMPRE!)
Claro, também não achava bonito ter que ficar sendo sustentada pelo pai. Eu sempre fui super mão de vaca e econômica, me aguentaria sozinha por alguns bons 5 meses, mas depois... não ia ter mais bufunfa que desse.
Minhas considerações de fato podem ser a ilustração caxias de uma menininha filha de papai que não pensa nos atos e faz o que quer.
Na verdade, nenhuma daquelas considerações fazia o mínimo sentido pra mim. A única coisa que me vinha à cabeça era:
Amigos! Eu tive CÂNCER e se não tivesse descoberto a tempo, não estaria sentada nessa mesa. Isso que vocês estão dizendo como itens importantíssimos, digno de vida ou morte, pra mim, não fazem o MÌNIMO sentido!!! Pra mim o que importa é minha felicidade. Só tenho UMA vida pra viver, estou consumindo há 8 meses, 16 h do meu dia nesse lugar, sem aprender nada, sem viver nada, sem acrescentar absolutamente nada na minha vida e que só me traz lágrimas.
A única coisa que acrescenta é o mísero salário ( e põe mísero nisso) que, toda vez que olho minha conta, me faz sentir uma prostituta, porque o mercado paga 3 vezes mais do que isso.
E eu tô aqui, sendo explorada e absurdamente infeliz, porque acreditei sempre que o salário é secundário, dinheiro não é tudo e vou ter muito aprendizado e experiência aqui dentro. NOT!
Mesmo assim, eu precisava fazer o que eu fiz. Pedi demissão e fui pra India.
Não, nunca na minha vida desejei ir pra India. Apesar de gostar muito de viajar.
Há alguns meses, tinha uma amiga que morava por lá e me enviava fotos, frequentemente.
Toda vez que eu abria o arquivo, confirmava, com orgulho e firmeza, que realmente eu não aguentaria passar nem 5 dias naquele lugar.Era muito pra mim.Eu tinha plena noção dos meus limites.
Mas ali, na minha frente, desenhou-se uma oportunidade única de ir pra lá.
A tal amiga estaria de férias e poderia me acompanhar num mochilão. Eu poderia me hospedar em algumas casas de conhecidos e conhecer a vida de lá mais como local e menos como turista.
Eu tinha o dinheiro pra bancar a viagem.
E sabia que se não fosse naquele momento, provavelmente nunca, na minha vida iria conhecer a India.
Fui à minha consulta de 2011 pra ver se tava tudo ok. Tomografia, exame de sangue, uma olhada naquela bolinha na virilha que tava me deixando tudo meio apavorada.
Saindo do médico, estava tão feliz, que me segurei pra não cair no choro. Fui à agência de viagens mais próxima dali e emiti minha passagem São Paulo - Mumbai.
Há muito tempo que não me sentia feliz daquele jeito. Era como se eu estivesse morta durantes uns 3 anos.
Comentários
Postar um comentário