O dia de Alice

Alice acorda.
Noite mal dormida, mas Alice já está acostumada e pensa como sempre: poderia ser pior, agora não preciso mais engolir aquelas pílulas pra fechar os olhos, eles já se fecham sozinhos.
Ela anda pela casa e encontra pelo caminho seus bichinhos companheiros de sempre. O que seria dela sem aquelas coisinhas? A vida seria menos colorida, com certeza. E com menos alergia, com certeza.
Ela recosta-se no sofá, naquele cantinho confortável, que parece ter sido geometricamente pensado só pra ela. Aquele cantinho onde ela pode cruzar as pernas, segurar a xícara e ler uma revista, tudo ao mesmo tempo.
Ela pensa nas coisas chatas que tem que fazer no dia.
Alice é uma menina muito vulnerável à coisas chatas ... só o pensamento delas faz Alice ficar um tantinho menos feliz. Coisas por obrigação são chatas e ela sempre soube que diante das coisas obrigatórias e sem objetivo algum, ela se rebela.
Alice só faz o que gosta e sempre se orgulhou disso.
Ela liga a TV, vê caranguejos vermelhos numa praia de um país em algum lugar do mundo, muito longe dali. Austrália talvez?
Ah, que saudades da praia, pensa ela. De sentir aquele solzinho quente da manhã, estirar-se na cadeira com o soninho matinal companheiro, e a barriga cheia de coisas gostosas de café da manhã.
O shuf shuf do mar, um passarinho voando e ela o acompanhando-o com os olhos até ele se perder horizonte. A visão da mãe ao lado, estirada, completando as palavras cruzadas. Ou lendo um livro enorme de 500 pgs.
Ela sempre admirou como a mãe consegue ler livros tão rápido de uma vez só; algo que ela sempre quis fazer, mas nunca conseguiu, pois o mundo a dispersa e ela tem a atenção de uma menina hiperativa de 5 anos ...
De volta ao sofá.
Legendas em francês.Alice assiste à um documentário de um canal francês sobre a vida dos caranguejos em um país tropical qualquer. Aquelas letrinhas a faz lembrar o quanto ela ainda tem a aprender daquela língua nova, e quanto tempo será que vai demorar pra isso? Apertinho no estômago.
Alice sente isso toda vez que entra numa loja de livros e olha pra todos eles pensando: nunca vou poder ler nem metade de tudo isso ...
Sente isso quando lê numa língua que ainda está aprendendo e percebe que seu saquinho de palavras novas ainda continua vazio.
Alice sempre sentiu isso, mas nunca soube dar um nome a essa sensação.
Ela termina a último gole de leite e desliga a TV. Pensa de novo nas mil coisas chatas que tem para fazer, todas obrigatórias.
Olha o celular, e percebe que há diversas ligações não atendidas.
'Só me perturbe quando eu deixar '- Alice não gosta de ser incomodada nos seus fds sabáticos. E esses fds têm se tornado cada vez mais frequentes.
Senta no computador, e entra no seu mundo.
Mais uma manhã nublada de domingo.
Comentários
Postar um comentário